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Montagem do Oficina para 'Senhora dos afogados' é o espetáculo certo na hora certa

Foto do escritor: Ronald Villardo
Ronald Villardo
há 11 minutos
2 min de leitura

Quinta-feira, 1º de outubro de 2026. Galpão da Cidadania, na Zona Portuária. Quem entrava no espaço reorganizado para recriar o formato cênico do Teatro Oficina, que traz ao Rio uma nova montagem de "Senhora dos Afogados", do Nelson, já ouvia um samba animadíssimo ao longe. O som parecia vir das coxias, mas um amigo apostou em outra possibilidade.  


"Acho que tem uma festa rolando em alguma casa ao lado". 

Parecia mesmo. Mas as batidas dos tambores, bem mais animadas do que as de Molière, ecoavam dos camarins, onde a trupe liderada por Marcelo Drummond invocava Dionísio, o deus que me parece bater ponto das produções do teatro erguido e mantido por José Celso Martinez Corrêa (1937 - 2023), um dos maiores gênios do teatro brasileiro. 


"Senhora dos Afogados" foi escrita em 1947, tendo como base a peça "Electra enlutada", de Eugene O'Neill, cuja base é o mito de "Electra", a tragédia grega que narra a vingança dos irmãos Electra e Orestes contra a mãe Clitemnestra e o amante dela, Egisto, pelo assassinato de pai, o rei Agamemnon. 


Se você reconheceu alguns dos nomes porque assistiu ao "Odisseia", você está certo. No poema original, inclusive, a tragédia de Electra é citada nas fofocas dos deuses lá. E tal contexto é absolutamente desnecessário para curtir a nova montagem dirigida pela multitalentosa Monique Gardenberg. 


A montagem é dividida em dois atos. No primeiro, tudo parecia limpinho demais. Fã do Teatro Oficina que sou, achei que aquela poderia ser a marca de Monique, ainda que as bases dionisíacas (sim, preciso repetir) do Zé Celso estivessem ali. O diretor é convidado para colocar a sua mão na massa, e dessa massa Monique entende muito bem. 


É um ato para rir com as "vizinhas", nas peles de Cristina Mutarelli, Michele Matalon e Ligia Cortez, se apaixonar pelo noivo Roderick Himeros (que foi um dos destaques da montagem de "Rei da Vela", que passou pelo Rio em 2017), e se deliciar com as atuações de Marcelo Drummond, como Misael; e Leona Cavalli, como Dona Eduardo. 


DURANTE O INTERVALO… 


"Achei meio limpinho demais para Teatro Oficina", comentei com uma amiga. "Eu to amando tudo porque acho Nelson genial… a parte do texto em que ele fala das mãos… nossa…", me respondeu. 

SEGUNDO ATO 


Agora sim. Este é o Teatro Oficina. Corpos com peles de cores brasileiríssimas tomaram seus lugares na passarela cênica, substituindo a branquitude sanitizada, alvo das flechas mais certeiras de Nelson, a elite dominante do primeiro ato. 


A sensorialidade materializada no pé na areia que literalmente cobre o palco, a força do desenho de luz de Pedro Felizes e Sarah Salgado, as escolhas precisas da direção musical de Felipe Botelho nos transportaram para o bordel made in Rio, onde milícias se misturam aos juízes e a moral é conceito elástico. Nada mais adequado às vésperas de uma eleição tão esquisita. Mas este é outro assunto. Ou não. 


Fato é que "Senhora dos Afogados" é um daqueles espetáculos que me faz desobedecer minha primeira editora, que me ensinou a nunca usar a palavra "imperdível" numa resenha. "Em tese, qualquer coisa é perdível", argumentou. Hoje, 30 anos depois, sou obrigado a discordar dela. 


A "Senhora dos Afogados" do Teatro Oficina é um espetáculo imperdível. 




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