Michel Alcoforado e o 'auto-exposed' involuntário dos seus (muitos) entrevistadores
- Ronald Villardo

- há 7 dias
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"Coisa de Rico" é o livro que o antropólogo gato Michel Alcoforado publicou ano passado, compartilhando uma década de estudos e observações do rico brasileiro em seu habitat natural, isto é, nas mansões (em Orlando) e nos iates (em Miami).
Não é difícil entender por que o livro publicado ano passado pela Editora Todavia é um sucesso de vendas e de repercussão. Michel escreve como quem conversa, exuberante nas ideias mas também charmoso nas ironias e especialmente afiado nas percepções e reflexões luxuosamente construídas.
Para curtir ainda mais as deliciosas 240 páginas do best-seller, recomendo fortemente que você confira pelo menos uma das muitas entrevistas de Michel, disponíveis na cauda longa de dezenas de postagens no Youtube. O autor falou com to-do mun-do que realmente importa (e até com quem não importa tanto assim...).
E ao praticar a arte da conversa com tanta gente, podcasters, TV aberta, programas de rádio, videocasts… Michel nos ofereceu um prato saboroso: observar, na prática, como boa parte das conclusões defendidas no livro de fato reforçaram-se, involuntariamente, durante algumas das entrevistas.
E mais não direi. Mas haverá sinais, alguns deles na lista abaixo, com algumas das entrevistas que falam mais de quem pergunta do que de quem responde. Divirta-se.
JOYCE PASCOVITCH

De longe, a minha preferida. A colunista de quem sou fã faz é tempo tem se revelado uma entrevistadora naturalmente talhada para o vídeo. Nestes tempos de podcasts, muita gente tenta, mas pouca gente consegue, manter um clima real de "bate-papo" num vídeo. Joyce faz isso com o pé nas costas.
Na entrevista com Michel, Joyce quis muito saber sobre os "códigos" que definem riqueza. A jornalista comentou como reagiu ao perceber que um amigo dela "muito rico" apareceu usando "uma mochilinha simples". E são justamente as reações sempre espontâneas de uma das nossas mestras do colunismo que divertem o espectador atento. Especialmente quando ela tenta "entender" o que Michel está dizendo. Observe.
A minha tese se comprovou num outro episódio da temporada. Ao entrevistar a diva fashion Gloria Kalil, Joyce mencionou o livro de Michel. E comentou: "Mas eu acho que ele fala mais do novo rico, ou como dizem as elites, o nouveau riche (risos)".
Aparentemente, Joyce não identificou no livro de Michel aqueles que o acadêmico batiza de "ricos desde sempre". Mais precisamente aqueles com os quais ela e a Gloria convivem. Desde sempre.
ANGÉLICA AO VIVO

Em várias das entrevistas, Michel reforça que os ricos até podem aceitar um antropólogo de classe média entre eles, mas sempre haverá a "lembrança", ainda que involuntária, de que ele não faz parte daquele universo.
E a dinâmica deste episódio do programa "Angélica ao Vivo" (um dos melhores programas de bate-papo atualmente) me pareceu provar justamente este ponto.
Ao compor a mesa de entrevistados com Murilo Benício, Grazi Massafera e Tatá Werneck, com direito à André Marques na cozinha (todos ricos… talvez não desde sempre, mas ricos), Angélica só dirigia a palavra ao Michel para falar especificamente sobre o estudo dele. E nada mais. Sem firulas. Por pouco, o antropólogo não foi nem incluído na maior parte das brincadeiras e nos papos do jantar "entre amigos". Ele ficou ali, meio que como um troféu. "O antropólogo" está presente.
No fim do programa, Angélica tira debaixo da mesa "os presentinhos" para os convidados. E foi só neste momento que ela percebeu que não havia "produzido" um presente para Michel. "Para você não tem presente porque eu estou te conhecendo agora (risos)".
CONVERSA COM BIAL

Pedro Bial é um dos meus entrevistadores favoritos de todos os tempos. Pouca gente usa os chapéus de repórter, diretor, cineasta, roteirista, dramaturgo e sabe lá mais o que, com tanta competência e rigor. E é justamente o rigor jornalístico que nos obriga a nos distanciar dos nossos entrevistados para que possamos achar o tom certo da informação que interessa a quem está assistindo.
Foram certeiras todas as perguntas do anfitrião que ainda quis saber se Michel havia sofrido racismo durante o trânsito dele entre os ricos. Para saber a resposta você terá que assistir à entrevista disponível no Globoplay.
Aproveita e me diz se você também achou que o Bial se comportou como se todo o objeto de estudo de Michel, os ricos, não tivesse absolutamente nada a ver com ele, que estudou no Santo Inácio e se formou na PUC-RJ.
Afinal, como Michel sempre lembra, "no Brasil, rico é o outro".
MAMILOS

No episódio 521 do podcast "Mamilos", a âncora Ju Wallauer fez o que pouca gente parece ter conseguido: se enxergar nos estudos de Michel e entender como nós, como sociedade, caímos nas armadilhas das "coisas de rico". Aliás, Michel também faz isso no podcast "É culpa da cultura", que nos dá algum alívio neste mundo hiper-psicanalisado onde tudo parece ser culpa nossa.
No bate–papo, Ju confessa que hoje em dia sente-se desconfortável com a decisão de ter viajado aos EUA para fazer o enxoval do filho no tempo do dólar 1 por 1. Com o bom humor e o charme de sempre, Ju conta que hoje percebe a cilada na qual caiu.
Todos caímos, Ju. Como diz o próprio Michel no episódio: "tá todo mundo correndo de algum pobre e querendo ficar perto de algum rico de estimação".
Falo por mim: ouvia o episódio do "Mamilos" enquanto me dirigia a uma concessionária de carros na Barra da Tijuca. Até aquele momento, minutos antes de chegar ao estabelecimento, eu estava decidido a trocar o meu carro atual por um… Jeep Renegade.
Desisti a tempo.
Obrigado, Michel.

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