Desistiu de Pluribus? Talvez você só precise dessas nove dicas para entrar no 'mood'
- Ronald Villardo

- 3 de jan.
- 3 min de leitura

Talvez você tenha desanimado um pouco depois de ver os primeiros episódios de "Pluribus", nova série do Vince "Breaking Bad" Gilligan, disponível na Apple TV.
Entendo.
É que a série tem um ritmo diferente do que nós estamos acostumados. Pelo menos nos últimos anos, período em que os algoritmos têm ditado a maneira como nós, público, consumimos conteúdo. E nunca me senti tão confortável ao usar a palavra "consumir".
Nas aulas de Teoria Literária, na faculdade de Letras, aprendi que o verbo mais apropriado para o que hoje chamamos de "consumo" de arte é "fruir".
Parece que o jogo virou, não é mesmo? De uns tempos para cá arte virou "conteúdo" e fruição tornou-se "consumo".
"Pluribus" me parece querer mudar esta escrita ao propor uma fruição de uma obra, que é, por natureza, plurissignificativa.
Vamos lá:
A série não é lenta. Não é aquele tipo de série que os roteiristas chamam de "slow burn", em que o conflito não parece muito claro no início e vai se construindo aos poucos. Não é isso. É uma obra que permite a absorção cuidadosa, para que todos os dados que ela coloca na mesa sejam considerados pelo espectador.
São muitos dados. Comecemos do começo:
A premissa da série é que rolou um armageddom e, por algum motivo, toda a população do planeta se conectou e passou a viver como se todos fossem parte de uma única e grande consciência coletiva.
Apenas 13 pessoas no mundo escaparam do fenômeno. Carol (Rhea Seehorn) é uma delas.
Carol, que é uma estadunidense loura, branca e de classe média alta, se vê no meio de uma Humanidade composta por pessoas que querem ajudá-la, protegê-la, alimentá-la e tornar a existência dela sempre segura e prazerosa.
É um tipo de ruptura social que torna imediatamente o planeta seguro, confiável, tranquilo, pacífico. É o fim das guerras, talvez até da fome e da desigualdade.
Pera… eu disse "desigualdade"? Aí talvez não seja o caso.
Como disse lá no começo, "Pluribus" coloca muitas cartas na mesa.
E é aí que a coisa se desprende do que nós estamos habituados nos streamings da vida. "Pluribus" não quer tratar de temas demais para uma única série, o que é considerado um erro de roteiro. "Pluribus" quer provar que, sim, ainda que você não queria, tudo está interligado.
E é baseado nesta conexão inexorável entre os seres que listo abaixo nove pontos de atenção para curtir "Pluribus". Vem comigo…
PODER
Notou que eu disse que Carol é branca, loura e privilegiada? É que isso talvez faça diferença quando você conhecer os outros 12 imunes ao vírus (?). Fique atento ao contexto de cada um deles. E observe como cada um reage à nova ordem mundial.
SEGURANÇA
Do que você abriria mão para viver num mundo absolutamente seguro, no qual você pode pegar seu carro a qualquer hora da noite e ir para onde bem entender?
COLETIVO
O seu bem-estar vale mais do que o do seu vizinho? Você toparia viver numa sociedade em que o bem comum é, de fato, um objetivo da sociedade como um todo?
PRIVACIDADE
Em tempos em que o algoritmo, esse personagem sem rosto, nos guia, aponta, orienta e manipula, a privacidade tornou-se um conceito quase líquido. Parece que existe, mas na verdade, já foi para o saco.
FELICIDADE
Quando citei "Admirável mundo novo", acima, foi porque a ideia da felicidade compulsória também parece surgir em "Pluribus". E ela pode ser muito, muito irritante.
PAZ
Há países que querem a paz matando os outros. É "my way or the highway". Assim mesmo, em inglês.
NORMAL
Pense no dia perfeito. O que você faz num dia típico da sua vida? E se esse dia não fosse atrapalhado por nada? Lidar com a "normalidade" pode ser mais inquietante do que imaginamos.
CONTROLE
De novo, volto à "Admirável mundo novo", "1984", "O círculo", entre outros livros sobre futuros em que a aparente liberdade parece esconder intenções questionáveis. Será?
TEORIAS
Eu já tenho a minha teoria do que realmente está acontecendo em "Pluribus". Só espero que Gilligan também tenha. Sou da geração que ficou traumatizada com o fim de "Lost" e "Leftovers". Torço para que "Pluribus" tenha um final nada feliz, mas convincente.
Estamos de olho.



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